A Tua Vontade

Abril 24, 2008

Um ensaio sobre a fé e a razão

por Rafael Carneiro Rocha

O entendimento de que a vontade de Deus é soberana se encontra em duas orações de Jesus Cristo. A primeira, que é o Pai-Nosso que Ele nos legou, há o pedido: “venha a nós o vosso Reino; seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu (Mt,6,10). Também, em Sua agonia no Monte das Oliveiras, Jesus orou: “Pai, se é de teu agrado, afasta de mim este cálice! Não se faça, todavia, a minha vontade, mas a tua (Lc,22,42)”. A soberania da vontade divina também é percebida quando se reconhece que ações humanas necessitam de existências que transcendem o alcance do indivíduo. É possível, por exemplo, agir politicamente, mas é necessário que exista uma pessoa a mais no mundo. Ou ainda, num ato de revolta contra a existência dos outros, é possível até mesmo se isolar da sociedade numa montanha, mas é imperioso que exista uma montanha. De fato, a própria vontade do indivíduo em agir se encontra numa natureza humana que, numa análise essencial, só existe porque houve uma vontade maior de que ela mesmo existisse.

Por outro lado, Jesus Cristo disse aos seus discípulos: “Pedi e vos será dado! Procurai e achareis! Batei e a porta vos será aberta! Pois todo aquele que pede recebe; quem procura encontra; e a quem bate a porta será aberta. Quem de vós dá ao filho uma pedra, quando ele pede um pão? Ou lhe dá uma cobra, quando ele pede um peixe? Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos céus dará coisas boas aos que lhe pedirem! Tudo quanto quereis que os outros vos façam, fazei também a eles. Nisto consiste a Lei e os Profetas (Mt, 7,7-12)”.

Um valioso complemento para esta passagem está na carta de São Paulo aos romanos: “Outrossim, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis (Rom.8,26)”. 

O reconhecimento da fraqueza humana é sempre bem sinalizado pelo cristianismo, porém, em contrapartida, o cristão se incita a lutar contra sua própria imperfeição.  O direcionamento correto da razão humana, por exemplo, é um dos grandes esforços do cristão para superar as limitações humanas. De fato, a fé cristã não opera dissociada da razão. Parte do pensamento moderno fracassa quando tenta se convencer do contrário.

Santa Catarina de Sena, que viveu nos fins do século XIV, em pleno domínio de sua capacidade racional, fundamentou que é necessário abolir uma vontade própria que, dissociada de Deus, é origem de todos os pecados. O pilar de seu pensamento está no preceito: “conhece-te a ti mesmo, em Deus”. A ordem do conhecimento, para Catarina, passa pelo fato de que a alma se conheça em Deus e que o indivíduo se reconheça como criatura sustentada pela Causa Primeira. Infelizmente, há um pensamento moderno que aposta num tipo de racionalismo antropocêntrico antagônico à sabedoria de Catarina. As introspecções puramente humanas, cujo terreno Descartes e Kant prepararam para muitos modernos se perderem, de Freud a Sartre, foram antevistas por Catarina, que orientava seus discípulos a tomarem o cuidado de, antes de explorarem a intimidade humana, se orientarem pela fé, que vem da mesma fonte divina que criou o nosso ser. Iluminada pelo bom uso da razão, Catarina de Sena construiu um pensamento sem confusões e, acima de tudo, santa, embasou o seu agir no mundo de forma a esmagar a vontade própria.

A razoabilidade do pensamento e a liberdade do agir são plenos quando passam por purificações vindas da fé. Dissociada da misericórdia, a razão humana, fora de parâmetros transcendentes, se endurece e se desvirtua, a ponto de atentar contra si mesma. Por outro lado, a fé dissociada da razão também atenta contra si mesma, porque tende a levar o indivíduo à dúvida. Sem estar em contato com a direção racional a Deus, o crente terá crises de fé cada vez que não for atendido e cada vez que uma grande provação fizer parte de sua vida. 

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